quinta-feira, 20 de março de 2008

ao longo dos últimos dois anos, por circunstâncias específicas, tenho estado paricularmente exposto a reflexões em torno dos lugares ocupados pelos diversos agentes artísticos, no seu entrosamento com uma realidade que, de forma preguiçosa, lá se vai apelidando de pós moderna (o que dá logo vontade de perguntar quando é que a realidade foi moderna…), ou globalizante (uma espécie de caixa de pandora, só que sem caixa).

as formas de operar dos artistas são as que particularmente me interessam. são objecto de curiosidade que, já percebi, está para durar. mas, e para passar ao lado da proliferação de outros agentes de ligação existentes no ecossistema artístico – não são poucos merecedores de análises bem mais consequentes do que esta –, há um objecto de interesse específico que informa este texto: os apetites da reflexão crítica.

interessa-me focar e tratar daquilo que se tem tornado mais saliente. estando fora do país, apercebo-me que é simultâneamente aguda e possivelmente distorcida a percepção de algumas das suas realidades. há perigos ao ir por aí da forma descomprometida como proponho estas palavras e o seu propósito. no entanto, pode ser que a mera apresentação aqui pressuposta me faça avançar noutras direcções, esclarecendo alguns dos sintomas que aqui inclúo ou deixo intuír.

sou um leitor mais ou menos regular do site ‘artecapital’; às vezes vou lendo e relendo, outras vezes passo os olhos durante cinco minutos como o nosso chefe de estado faz aos jornais (eu também faço o mesmo, mas os tempos são outros e perder tempo hoje em dia com os jornais, sobretudo os nacionais, é pior do que perder tempo: é embrutecer).

mesmo que, interessado em arte, andasse por aí muito distraído ou a ter mais do que fazer do que ler os materiais disponíveis no sítio ‘artecapital’, não poderia deixar passar ao lado a importância que o trabalho levantado por aquela equipa concretiza.

respondendo, sorrindo muito como é meu costume, a uma pergunta dos meus botões, diria que se tivesse que justificar a relevância do ‘artecapital’, avançaria com múltiplos exemplos. entre eles, certamente aquele ilustrado pela forma como a crítica escrita, pelo menos no verão passado, andava a presentear os leitores de um jornal com estrelas e bolas pretas a propósito de exposições. uma ideia peregrina, tanto de quem nela pensou e de quem a ela se rendeu… vejamos qual será a progressão desse conceito.

eu cresci, também enquanto artista, num país onde determinado modelo de reflexão foi tomando forma, crescendo, exercendo a sua análise ou falta dela; de forma mais informada ou, muitas vezes, com os piores adereços que se podem colocar na palavra ‘subjectividade’. o caudal nunca foi muito abundante (e isso por si só qualifica incicativas como o 'artecapital'), inevitávelmente ia-se dar a duas ou três fontes ‘de referência’, que consequentemente se constituíam como lugares de um certo poder (nem vou alongar o assunto neste ponto: faço uma grosseira correpsondência das lições que a história nos foi deixando: portugal, a 'west coast' dos poderesitos intuídos; não obrigo ninguém a partilhar comigo este ponto de vista).

não me parece que o mesmo trote passe pelo ‘artecapital’. de facto, pela sua própria matriz e enquadramento, posso presumir sem grandes riscos que a ideia de transcender limites (e não repetir os modelos já oferecidos, pelo menos de forma consciente) está subjacente ao projecto; mas não posso avançar muito neste terreno, nem sou especialista nem quero induzir em erro. parece-me, no entanto, que não se trata tanto de ampliar a lente, mas de multiplicar as possíveis lentes que possam caracterizar os trabalhos e as ideas que andam a orientar os criadores, ambos ligados à própria ampliação do braço mediático social. é hoje possível encontrar vários tipos de estruturas semelhantes, em pontos diversos mas ainda assim circunscritos a determinados parâmetros.

o próprio ‘artecapital’ constituí terminal de expressão dessa multiplicidade, inscrita nas reflexões propostas: vocabulários mais ou menos pesados, ideias mais ou menos presas a esta ou aquela proveniência, estilos menos personalizados de pensar – melhor, de escrever - ou pelo contrário, fortemente vincados - a roçar o rídiculo, em alguns casos; mas valha-nos o humor involuntário!

a meu ver, é absolutamente essencial que a disparidade transportada por este tipo de veículo esteja contida nas propostas concretizadas; as leituras em paralelo de materiais diversos parecem-me uma forma importante de poder aprender e maturar as minhas próprias reflexões e escolhas. o modelo inclusivo e abrangente tende a ser encarado como mais um resultado entre outros, localizado no tempo? pois, que assim seja; no entanto, há que dele tirar partido.

como sugeri, os sítios que oferecem este tipo de olhar crítico disseminado em várias vertentes vão-se multiplicando, eventualmente inerentes e em consonância com as indústrias da cultura em expansão sincronizada com o mundo mediático. há um espaço cuidado e bem vindo para eles, exponencialmente relevante na altura e circunstâncias que proporcionam fácilmente o apontar do declínio realtivo à qualidade do mesmo tipo de exercício nos meios tradicionais, e da sua ultrapassagem ou assimilação pelo mercado (ver, a esse propósito e entre outros materiais, os textos do inglês julian stallabrass, famoso por crixificar a fórmula populista dos YBA)

ainda nesse contexto de mercado e alcance da influência do mesmo em termos operativos, a crítica encontrou há muito um serviço a prestar que lhe confere outras forma de poder, mais sinistras, com a contrapartida de ter de se adaptar a novas circunstâncias: o discurso crítico (peço nesta altura compreensão para os saltos que este texto vai dando, muitos dos elementos que convoco merecem por si só uma atenção especial à forma como se apresentam ‘embalados’) própriamente dito, tende a desaparecer desta equação e concentra-se, refugiado, numa marginalidade que foi cara aos contextos artísticos (e continuará a ser, ou é algo que se quer ultrapassar?)
como complemento a este propósito, sugiro a análise das circunstâncias que levaram ao corte de rosalind krauss com a ‘artforum’ e a criação da espartana ‘october’.

como estou a divagar mais do que preciso, corto a direito.
assim, além das dúvidas relativas ao inevitável texto com carácter que entendo duvidoso ou questionável que vai aparecendo, (sobre o qual paradoxalmente celebro a visibilidade, bem como o facto de poder ser lido), o que interrogo àcerca do ‘artecapital’, sem outras reticências, é uma grande ausência, experimentada de modo intuitivo mas creio que fácilmente comprovada, de textos que apresentem a realidade da cidade do porto.

sempre me pareceu ridiculo operar entre o discurso de bairro e o o discurso que encolhe os ombros de forma paternalista,sendo que o mesmo polariza vários níveis de discussão entre as realidades do porto e de lisboa, e que nunca chegam a aprofundar nada. aliás, todas as formas de simplificação nestes termos do ‘coitadinho preciso de atenção’ e do paternalismo que lhe é objecto directo são pobres mas estão infelizmente bem vivas.
resultado de um país pobre e centralizado em imagens e modelos de projecção distorcidos?
será preciso muito tempo e seriedade para responder a isto?
parece-me que não.

a coberto de todas as circunstâncias materias, pessoais ou outras, as quais me são estranhas, que possam orientar ou impôr linhas editoriais, parece-me descabido apresentar tamanha quantidade de textos sobre as realidades de paris ou nova iorque ou do artista x ou da dança de cadeiras entre comissários disto ou directores daquilo enquanto se passa calmamente ao lado daquilo que vai acontecendo, por exemplo, na segunda cidade do país – que, tal como parece que nem toda a gente percebeu por esta altura, tem mesmo uma vida artística vincada por museus, galerias e espaços activados por outros modelos. esse encolher de ombros, materializado no noticiar sobre um prémio para artistas na cidade de liverpool mas não sobre a abertura de um novo espaço na cidade do porto, revela exactamente o quê? é esta reflexão que me parece pertinente, até para pensar outro tipo de questões.

(já agora, notar bem: estou a exemplificar limitando-me às breves notícias que compõem uma das secções do 'artecapital', não aos textos mais extensos que o sítio oferece como elemento central; nesse campo, a realidade do porto que, pressupõe-se, importa reter, parece começar e acabar inevitávelmente no museu de serralves e pouco mais, como aliás convém para manter a tradição. pena é que em arte coisas relevantes continuem insistentemente a acontecer ao lado das mais programadas e por isso mesmo vistosas, como alias qualquer pessoa mais consciente e interessada no assunto constata.)

este texto pode ser reduzido a um apontamento meramente intuitivo, perseguindo de forma irregular uma condição que atravessa de facto a reflexão cultural portuguesa, e as formas de dar a ver e reflectir que a compõem, vistas à distância e através do foco oferecido pelo sítio ‘artecapital’, que por ser um projecto com alcance e uma relevância atestada, a meu ver, por alguns dos conteúdos críticos que propõe, deveria colocar atenção em factores que não são menores, nem inconsequentes; são estruturantes da realidade que todos temos responsabilidade em constituir e assumir.

11 comentários:

art&tal disse...

bem esgalhado mas...

em tempo de semana santa

esperava algumas pregadelas dolorosas

quem sao os que servem interesses de comerciantes e coleccionadores?

quem serve quem? quantos sao? quanto recebem? quem sao? hmmmmmmmmmm! conversa escaldante.

e como nao devo favores nem tenho o rabo trilhado...


para quando a explicaçao publica a proposito daquela anedota do comissário/curator MW?

nao era um bom motivo de conversa?

e porque continuam os artistas calados?

hmmmmmmmmmm!

nuno disse...

parece esclarecido o equívoco quanto ao nome.

não me parece esclarecido o propóstio do texto que escrevi:

estava (e estou) mais interessado em apontar, por um lado, um certo desequilibrio nos textos que vão aparecendo pelo 'artecapital' (o que até nem me parece tão mal como à superfície possa parecer);

por outro, a fundamental e séria desatenção por parte de quem orienta o projecto para com realidades dentro do próprio país, em especial aquela que existe no porto; e como pode essa condição ser interpretada.

só dentro destes parâmetros estão pontos suficientes para reflectir - é a isso que o texto convida.

as possibilidades sugeridas pelo 'art&tal' parecem-me outras (não quererás apresentar neste blog um texto desenvolvido a partir dos pressupostos que te inquietam? ainda por cima tendo um rabo tão cheio de liberdade :•)

se bem que a pergunta inicial deixa antever um tom de perseguição que pouco me interessa, mas pode interessar a outros.

parece-me claro que qualquer atista serve interesses, em especial o seu, esteja mais ou menos consciente desse facto. sendo o mundo o lugar que é, onde outros silêncios são muito maiores, o artista precisa de comerciantes e coleccionadores, modelos mais visíveis (mas não únicos) de reconhecimento do seu trabalho.

esses e outros agentes da arte, mais não são do que intermediários, apesar de hoje em dia a balança pesar mais para esse lado.

art&tal disse...

"estava (e estou) mais interessado em apontar, por um lado, um certo desequilibrio nos textos que vão aparecendo pelo 'artecapital' (o que até nem me parece tão mal como à superfície possa parecer);"

mas a arte capital continua a nao ser algo de capital importancia.

está no molho onde estao compradores vendedores opinadores :)

nem os texto da arte capital sao escritos pelo w. benjamin

isso é que era bom

entendo o teu empenho. é a tua "luta"

haja dinheiro para o condominio... pra a agua de banho e prós sabonetes...

a vida corre :)

saude

nuno disse...

concordo, há poucas coisas de grande e urgente importância, e o artecapital não é uma delas.

nem o que por lá se escreve deixará grandes marcas. mas para mim, parece acertado que existam espaços de reflexão com um leque bem amplo de perspectivas - mesmo que, por hipótese, nenhuma delas seja tão vibrante como as do benjamin, é bom saber que de vez em quando se pode tropeçar em textos que sabem estimular. já me aconteceu isso mesmo pelo 'artecapital', o que não quer dizer que a minha experiência seja exemplo para ninguém - but that goes without saying (apesar de se poder insistir na história do rabo preso e dos favores e mais não sei o quê)

às vezes, os textos nem estimulam tanto a cabeça, é mais o riso, que também é uma forma de inteligência (até o atormentado benjamin sabia rir).

por isso, e para mim, espaços como o 'artecapital' serão sempre bem-vindos, com todas as limitações que se possam apontar, mesmo as estruturantes (como acredito que seja a condição no caso que apontei, enquanto sintoma de outras mecânicas infectantes), e com a relevância que se lhes atribua (afinal, individualismo é individualismo!).

não sei porquê, será defeito meu, mas parece-me bem que se opine sobre arte, que se ofereçam palpites mais ou menos informados e esclarecedores e comprometidos e imbecis, mesmo que opte por não perder muito tempo com isso nem me pareça vital; na pior das hipóteses, lá vão alimentando a contra-peso os nervos de quem passa a vida empenhado a trabalhar nas tarefas mesmo muito grandiosas e relevantes que normalmente se carregam em ombros. sei um bocadinho do que falo, também dou muito para este peditório (enfim, do que sobra para o condomínio).

acho mais confuso existirem colunas sociais com fotografias das tribos artísticas espalhadas por publicações de arte on e off line; uma das que mais perplexidade me trouxe até era da resposabilidade de um artista plástico, numa revista de leilões e arte publicada em portugal. não sei se ainda se mantém. se acabou, é pena; se se mantém, também.

e agora, com licença, vou levantar o cheque que os meus compadres do 'artecapital' enviaram. preciso de comprar sabonete. líquido, para não deixar rasto.
ahhh!, o que eu gosto de pessoas que me topam bem!...

art&tal disse...

entendo perfeitamente

bom banho

ps: claro... concordo

vou sair para comer uma francesa picante

nuno disse...

:•)

art&tal disse...

fixe

parece a pagina

da intersindical

pf um pouco mais de amarelo nas letras

:)

M0rph3u disse...

Ola' Nuno!

Estou de acordo contigo, mas nao partilho da tua critica.
Digo-te isto, porque um dos pontos que tem sido debatidos com a editora da ArteCapital tem sido exactamente o porque de nao existirem tantas noticias do Porto.
A questao e' simples. A edicao online nao tem exactamente uma estrutura. Existe uma editora inquestionavel, mas os textos sao escritos e de responsabilidade total das pessoas que colaboram com a edicao.
Nao e' nada contra o Porto. Ninguem quer marginalizar o Porto. O Porto so' nao tem um colaborador que escreva sobre o que la' se passa.
Quando existe alguma noticia do Porto e' porque alguem de Lisboa se deslocou ao Porto para escrever sobre determinado tema e normalmente e como bem disseste, acaba por ser sobre Serralves.

Mais do que pedir atencao, e' pedir a alguem no Porto que se assuma como "responsavel" pela divulgacao dos eventos artisticos da cidade.
Quando quero saber alguma coisa que se passa no Porto consulto o blog Sombra Chinesa (do qual tambem fazes parte).
Entretanto, fui confrontado com uma situacao um pouco estranha e que ainda nao percebi completamente. Possivelmente sabes mais do que eu.
O facto e' que havia alguem do Porto a colaborar com a Artecapital e disposto a escrever sobre o que ai se passava, mas que por uma incompatibilidade apos criticas feitas acerca de um texto, deixou de escrever (falo do Jose' Roseira).
Essa era a unica pessoa que realmente divulgava o que se passava ai. E fe-lo durante bastante tempo, ate' a esse dia em que provavelmente por nao estar disposto a ouvir criticas o deixou de fazer. Desde entao fez-se um silencio - como se nada acontecesse, 'a excepcao de Serralves.

Eu apelava a que realmente alguem com vontade e que consegue identificar tantos males ou ate' injusticas em relacao ao Porto se chegue 'a frente e contacte a Artecapital com o intuito de divulgar os eventos da cidade preenchendo esse vazio que se sente.
Concerteza que iria ter um feedback positivo e iria contribuir para um ambiente constructivo e inclusivo no panorama artistico nacional.

Claro que escrevo isto e sou suspeito, pois de alguma forma me incluo do "outro lado", mas eu propus-me a escrever sobre o sitio onde vivo e visto que vivo em Nova Iorque escrevo sobre este local, com a intencao de partilhar as exposicoes que visito e eventos que penso importantes e que acontecem nesta cidade; com as pessoas que vivem no meu Pais e que por impossibilidade nao podem estar presentes.

A questao e' simples e nao tem nenhuns contornos menos claros. A falta de informacao sobre o Porto deve-se 'a falta de uma pessoa do Porto que escreva sobre o que ai se passa.
Se conheceres alguem interessado diz-me e terei todo o gosto de contactar a editora para que a contacte. O email dela tambem esta' disponivel no site, pelo que tambem a podera' contactar directamente.

Mas generalizando em relacao ao Pais, um dos "nossos" maiores males e que nao custa muito perceber e' que nao comunicamos muito e comunicamos mal. O Porto parece longe de Lisboa... alias... todas as cidades parece que pertencem a Paises diferentes, visto nao existirem esses canais de comunicacao que seriam desejaveis.

Em relacao 'a qualidade dos textos. Nao posso falar pelos outros, porque nao os conheco sequer... mas nao procuro nao me agarrar aos chavoes e ao que os outros dizem. O que as pessoas leem foi escrito por mim, sao reflexoes minhas e espero que de alguma forma, o meu texto ajude a compreender uma realidade que me e' familiar, mas que possa nao o ser 'as pessoas que me leem.
Caso existam alguns pontos que possam menos claros ou ate' discutiveis, terei todo o gosto em o fazer, pois apesar de me considerar "autor", nao estou a dizer que o que escrevi deve ser lido 'a letra e que e' alguma lei.
Longe disso, o resultado e' tao simplesmente uma reflexao critica (ou o mais perto disso), com um caracter tambem informativo sobre um determinado evento artistico que tenha achado relevante.
Existem muitos outros que por vezes sao igualmente interessantes e relevantes e dos quais nao falo... e' dificil falar de tudo.

Julgo que o importante e' que as pessoas que leem o que escrevo se sintam informadas e contextualizadas sobre o que aqui se passa. Tambem tenho a consciencia bastante tranquila em relacao aos comerciantes e aos coleccionadores. Nao devo nada a ninguem e tambem espero que ninguem se sinta em divida comigo. Tudo o que escrevo e' pessoal e tento ser o mais imparcial possivel.
Julgo que essa e' tambem a mensagem que a ArteCapital tem tomado desde o inicio - isencao. Se bem que em muitos casos aparentemente possa nao parecer, o certo e' que essa e' uma das "regras de ouro".
Contudo, o mundo e' pequeno e mais tarde ou mais cedo o lado pessoal junta-se ao outro - o profissional. Ai nao existe editora que valha... a questao passa mais pelos valores de cada colaborador em se sentir bem com a sua consciencia. Em todo o caso, a editora da ArteCapital tentara' saber ate' que ponto o texto e' de caracter pessoal e tentara' perceber ate' que ponto o texto podera' ser um "favor" e nao um texto critico imparcial - falo disto porque me aconteceu uma vez... mas tive de me defender e penso que se percebia que a importancia do texto nao estava nas pessoas que conhecia e que fazim parte da exposicao, mas da propria exposicao. Por vezes existem coincidencias.
Em todo o caso fica aqui aberto o ponto em relacao ao Porto. O Porto precisa de escritores/documentadores/divulgadores de Arte, essencialmente - e que saibam aceitar criticas ou que nao deixem que as criticas os afectem.
Essencialmente a mudanca acontece em nos mesmos, se estivermos disponiveis e com vontade de a fazer.
Pode-se teorizar muito acerca do problema, mas neste caso a solucao e' muito simples.
Relativamente 'as noticias que sao passadas de lado - ou ate' divulgacao das exposicoes, elas poderao ser enviadas para: info@artecapital.net

Abraco e continuacao de bom trabalho,

Pedro

isabel disse...

olá pedro,
queria-te enviar uma resposta por e-mail, mas já dei volta aos teus sites todos (pelo menos aqueles que conheço) e não encontrei o teu endereço eletrónico. será que o podias enviar para o mail da sombra? ou para isabeiro@gmail.com?

nuno disse...

olá pedro!

obrigado pelo teu comentário, e por todo o feedback que tens deixado pelo 'sombra chinesa' também. é esse tipo de resposta que precisamos todos.

é impossível não concordar contigo. a realidade mostra que no porto não existem interessados em produzir, de uma forma contínua e cuidada, textos de reflexão ou, pelo menos, de divulgação do pouco que ainda se mantém em termos de actividade artistica para lá das instituições. ou, existindo, não estarão informados ou interessados na colaboração. nota-se bem no artecapital que exemplos como o teu são recorrentes e estruturais do projecto, ou seja, as pessoas reportam-se nos seus escritos à realidade dos sítios onde estão a viver, ou onde passaram. mas, ao contrário do que escreves, a questão parece-me tudo menos simples.

acompanho há demasiado tempo os esforços de alguns criadores que escolhem trabalhar no porto, em termos de produção, e, para o que aqui possa interessar, divulgação - insistente, atempada - para apenas deixar a coisa resolvida pela falta de quem se chegue à frente no porto.

quem se atreve a vir de lisboa ao porto, enfrentando a tirania de 2h30 minutos enfiado num combóio, não quererá tirar maior proveito desse tão desagradável e titânico esforço enfiando o nariz em sítios menos prazenteiros do que as paredes brancas de serralves? pelos vistos, não. o 'risco' pode até não valer a pena, certamente será assim na maioria das vezes; mas, como não acredito que entre os colaboradores do artecapital não existam pessoas que, não residindo no porto, a ele se desloquem até mais do que uma vez ao ano, para testemunharem as propostas de serralves... porque não olhar para outras propostas apresentadas na cidade? ou será necessário fabricar-se no porto quem escreva sobre o porto? é a este modelo medieval que nos vamos reduzir, numa altura em que as pessoas e os bens circulam como nunca?
era esse essencialmente o meu ponto, uma vez que pontos de vista críticos sobre as mostras em serralves abundam no artecapital.

outro ponto que levantas parece-me essencial, as pessoas tem comunicado mal entre porto e lisboa, o que a mim me causa aflição e me parece um ponto a ultrapassar.

quanto às parcialidades ou falta delas por parte de quem colabora no artecapital, não fui eu a levantar essa questão porque não me interessa, tenho pouco espírito policial e como escrevi, respeito quem dirige e colabora com o projecto. parece-me era que se fazia mais a referência a outros parâmetros, como aqueles que tem sido interrogados pelo augusto m. seabra.

um abraço

M0rph3u disse...

Ok, Nuno estou a entender melhor as tuas questoes.

Bem, o quie tambem quis salientar aqui e' que nao existe uma verdadeira "estrutura" - solida e inabalavel. Podera' existir, quando muito, uma estutura de juncao de boas vontades, 'as quais e' adicionado o rigor editorial.
A ArteCapital nao e' exactamente um jornal ou alguma estrutura que envia os seus correspondentes pelo mundo fora 'a procura de acontecimentos.
O meu repto foi mesmo nesse sentido - o de procurarem dentro de voces essa pessoa que faca a ligacao com a suposta estrutura da ArteCapital.
Como estou a fazer salientar, a ArteCapital e' sobretudo uma vontade de todos os que com ela querem colaborar.

As deslocacoes a Serralves, penso que se fazem na medida de que Serralves e' um espaco onde existe um trabalho museologico que merece ter destaque nacional e dai que de vez em quando existam pessoas que se deslocam ate' la' com o intuito de escrever sobre o que la' se passa.
O facto de nao haverem desvios deve-se, imagino eu, a um profundo desconhecimento sobre o que mais se passa.

Sinceramente eu, na vossa situacao adoptaria uma forma mais proactiva de accao, que seria escrever sobre o que ai se passa.
Eu nao acredito que nao existam mais pessoas a querer fazer esse trabalho?
Ate' porque acredito pouco em divulgacoes pontuais. Eu penso que o trabalho que e' feito no Porto - nao necessariamente feito em Serralves, deve ser acompanhado mais de perto e de uma forma mais continua.
Sinceramente ate' penso que isso e' feito. Dai que as minhas passagens pela Sombra Chinesa sejam feitas de forma regular e muito do que vejo ser feito pelo vosso esforco parece-me ter grande validade e seria de todo interessante que pudesse ser partilhado com outros artistas a trabalhar em territorio nacional.
Um desses casos e' o trabalho que e' feito por este blog e que cria um espaco de partilha entre os varios produtores de Arte do Porto.

Mas sinceramente e porque tenho alguma nocao de tudo o que voces tem feito pelo Porto ate' penso que seria injusto ter de esperar que aconteca alguma coisa em Serralves, para que alguem saia de Lisboa para ver o que mais ai se passa... achas isso justo?
Parece-me mais interessante que exista uma pessoa dai a fazer esse trabalho de forma coerente e o mais imparcial possivel.

Por outro lado entendo que do ponto de vista entre a separacao critico/pessoa/amigo, etc... seria mais confortavel ter alguem de fora. Em caso de litigio existem menos pontos comuns e situacoes desconfortaveis a enfrentar... mas ao mesmo tempo, ha' que saber separar os papeis que todos temos no processo.
E' normal que existam amizades e outras relacoes para alem das "profissionais", mas e' esse o lado "duro" da critica.
O critico tem de ser responsavel sobre o que esta' a escrever e nao levar o que esta' a escrever de animo leve.

Penso que 'a falta desta "critica" voces desenvolveram os vossos proprios espacos de interaccao e isso e' tambem importante de analisar. Porque voces sentem necessidade da existencia de uma critica, ou pelo menos falar dos trabalhos uns dos outros.

Como tive oportunidade de dizer 'a Isabel, as pessoas que fazem a ArteCapital nao trabalham para ela a tempo inteiro. Tudo o que acontece e' fruto de um esforco pessoal em criar um espaco de divulgacao e discussao critica de arte.

Volto a fazer o repto que fiz antes e sem querer criar desculpas, penso que um sistema distribuido funciona sempre melhor do que um que e' gerido de forma monolitica - porque os recursos sao melhor geridos e o peso da estrutura e' dividido entre todos.
O facto do Porto aparecer algo apagado relativamente 'a sua classe activa na ArteCapital nao e' resultado de nenhum boicote.
Ainda que hoje as distancias estejam mais pequenas, o facto e' que sofremos ainda de problemas de mobilidade.

Uma das melhores coisas que a nossa geracao tem acesso e' a esta forma de estar Do-It-Yourself.
Hoje em dia os meios estao 'a mao de quem os quer usar. Ja' nao exista essa monopolizacao da Informacao (e a Informacao e' uma arma) por apenas alguns.
Falo nisto e ate' penso no que o Walter Benjamin abordou com as suas ideias sobre a reproducao tecnica. A verdade e' que os parametros de reproducao e em especial do acesso 'a Informacao estao hoje desenvolvidos mais que nunca... e e' esse ponto que me leva a insistir que exista alguem no Porto que se dedique (ou pelo menos parte do seu tempo) a escrever sobre o que ai se passa.
Porque a "estrutura" ArteCapital tem a capacidade de ser flexivel o suficiente para acolher novas escritas (desde que se encontrem dentro dos parametros editoriais, claro!).
Em todo o caso, e como disse estou solidario com a vossa causa, mas nao vejo outra solucao que a que apontei. Mas falo-te disto e penso em outras realidades que tambem focaste anteriormente.
A propria ArtForum tambem se constroi destas visoes mais ou menos localizadas das pessoas que nela colaboram. Se em vez da ArteCapital estivessemos a falar da ArtForum, o problema mantinha-se. Sao ambas edicoes que vivem das vontades dos seus colaboradores.
A unica edicao de Arte que parece saltar fora desse registo e' talvez a ArtReview - versao online. Essa sim, pelos menos dentro das que tenho conhecimento, tem pessoas que se deslocam aos locais onde estao a acontecer coisas e tomam iniciativas de ver pelos seus proprios olhos diferentes realidades (caso do James Wescott que visitou Lisboa na epoca em que o CCB passou a ser designado em Museu Berardo).

Nao sei mais o que dizer sobre o assunto. Acho que me fui repetindo vezes sem conta sem sair do mesmo.
Mas e' isso... voces precisam de alguem que esteja disposto a fazer a ponte e a comunicacao (critica) para fora. Act Locally think globally!

Abraco e continuarei a acompanhar como de costume.
Ca' estarei!

Pedro